quarta-feira, 30 de julho de 2008

Tambores ecoando por uma longa estrada.

Por Revista RAIZ.


Um pouco sobre a Casa de Cultura Tainã que recebeu em novembro a Ordem do Mérito Cultural concedido pelo MinC
Por Thereza Dantas
Fotos de Érico Hiller

Quando se fala em cultura popular a primeira idéia que vem à cabeça é uma casinha de sapê no pé de um morro verdejante com um lavrador tocando uma viola da gamba ou uma flauta de madeira, com passarinhos chilreando ao redor.
Numa cidade de um milhão de habitantes como Campinas, interior de São Paulo, existe um espaço cultural em um bairro de periferia. A Casa de Cultura Tainã atende a população que trabalha e vive num centro urbano. Fica próximo de várias avenidas e de uma estrada movimentada que é a rodovia Anhanguera. Lá se produz cultura popular. O lugar está cheio de jovens, muitas crianças passeiam pelas salas, a confusão é visível e agradável. Os adultos entram e saem rapidamente. A Casa de Cultura Tainã recebeu no dia 10 de novembro a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura. Entre os homenageados 11 grupos e instituições e 30 personalidades estão a poetisa Cora Coralina (in memorian), o músico Sivuca e o grupo Corpo, companhia de dança contemporânea. A Banda de Pífanos de Caruaru, Dona Teté do Cacuriá, o Boi do Palácio Seu Teodoro, os mestres Eugênio e Verequete.
Antonio Carlos Santos Silva é um homem de 53 anos. Seus dread looks chamam a atenção, mas sua altura e porte não passariam despercebidos mesmo se ele não os tivesse. TC é o responsável pelo espaço, desde 1989. Antonio Carlos Santos Silva é o TC.
Ele é calmo, sua fala é tranqüila, mas TC não é a imagem típica de um homem da cultura popular. Nasceu em Campinas, viveu em São Paulo. É músico, ator, dançarino. Militante do Movimento Negro lembra com saudades do grupo de teatro Evolução que em 1972, ele jura, retomou a luta no Brasil. “Na década de 50 artistas como Ruth de Souza e Abadias do Nascimento eram as pessoas que lutavam pela nossa história. Depois tudo parou por conta da ditadura, mas nosso grupo de teatro montou peças como História do Samba e Sinfonia Negra na década de 70.”
A preocupação com o resgate da história de uma grande parcela da população brasileira é clara. Ele fala dos bairros negros de Campinas, canta sambas de descanso, sambas de roda, relembra o reisado que invadia as ruas com seus tambores. Aliás, tambores são uma constante na vida do TC.
A conversa é abafada pelo som metálico, de timbre agudo, que vem da sala de aula. Lá estão cinco tambores de aço. Cinco steel drums, os últimos instrumentos inventados no século 20. Criados em Trinidad e Tobago pela comunidade negra do bairro de Laventille, um morro de Port of Spain, em Trinidad, no começo da década de 40 do século passado.
A história da invenção desse instrumento é curiosa. Jovens negros desfilavam com tambores de pele no carnaval e em outras festividades. Mas como as festas quase sempre acabavam em brigas, os tambores foram proibidos. A comunidade passou a usar tambores de bambus e agregaram tampas de latões de lixo, panelas e outros objetos metálicos porque emitiam um som mais alto que os tambores de bambu. Durante o período da segunda guerra vários tambores de gasolina foram abandonados pelos navios norte-americanos.
Em 1942, um garoto chamado Winston “Spree” Simon emprestou um tambor grande de forma hemisférica a um amigo. Esse amigo devolveu o tambor amassado e Winston tentou consertá-lo com um pequeno martelo. Na medida em que ele martelava, sons de diferentes tons e notas iam surgindo. Em 1946, Simon desenvolveu um steel drums de 14 notas. Quando ele mostrou o novo instrumento no carnaval de Trinidad, fez tanto sucesso que logo várias bandas de música adotaram o instrumento.
O som de um steel drums é mesmo surpreendente. Lembra um som amplificado, em alguns pontos de seu corpo, não emite nenhuma nota. O manejo das baquetas é muito suave. Por enquantosão 5 tambores de aço; 1 tenor, 1 double tenor e 1 double second, na Casa de Cultura Tainã.
A confecção de um tambor de aço é um trabalho sofisticado. O galão de aço é amassado, transformado em côncavo a martelo, aquecido, para aumentar a resistência do metal, e depois martelado novamente de baixo para cima para produzir as notas musicais. Aí começa o grande trabalho da afinação, que consiste num “amaciamento” da nota. Num único instrumento pode-se ter 10 variações de timbres. São tons e semitons, criando escalas cromáticas que precisam ser memorizadas por quem toca. Nos instrumentos da Casa de Cultura Tainã várias inscrições no corpo do tambor para facilitar o aprendizado dos jovens. “Nós escrevemos as notas musicais com tinta azul para que sejam memorizados pelos alunos. Mas a tinta com o tempo desaparece” avisa TC. A maioria dos instrumentistas toca as canções pelo processo de memorização. O ensino por partitura é tão recente como a invenção do tambor de aço e as possibilidades sonoras de um único instrumento são grandes.
A compra do primeiro tambor de gasolina pela Dona Toninha para que TC construísse o primeiro steel drums e se responsabilizasse pela educação musical das crianças, o encontro de dele com a Orquestra Atlantic Symphony, na década de 80 e a vinda da pianista Soluna Garnes ao Brasil para ensinar aos meninos da Vila Castelo Branco, demonstram que os caminhos que levam á Orquestra de Tambores de Aço não são lineares, mas eles estão chegando perto de um diálogo inédito do som do Caribe com o som do Brasil.

terça-feira, 29 de julho de 2008

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sobre Orquestra Tambores de Aço

A idéia de criar o Projeto Orquestra Tambores de Aço surgiu depois que Antônio Carlos dos Santos Silva, mais conhecido como TC, assistiu a uma apresentação da Orquestra de Tambores "Atlantic Symphony" em Campinas 1978.

E foi somente em 1989 que TC encontrou condições para realizar um sonho. Surgia a Casa de Cultura Tainã , TC foi um dos fundadores e ali começou a desenvolver o trabalho com 80 crianças que atraídos pela música se afastavam de situações de riscos. A idéia então era de capacitar monitores/multiplicadores, ministrando oficinas em outras entidades e espaços. Tudo se tornou realidade quando o projeto foi aprovado integralmente pela Lei Rouanet.

Hoje a Orquestra Tambores de Aço é um dos vários projetos em andamento da Casa de Cultura Tainã, que também é Ponto de cultura e faz parte do Projeto Cultura Viva do Ministério da Cultura. A mais recente apresentação da Orquestra Tambores de Aço foi no dia 27/06/07 no Seminário Internacional Sobre Diversidade Cultural em Brasília com a participação do Ministro da Cultura Gilberto Gil.

Onde a Orquestra de Tambores nasceu

Minha foto
Campinas, São Paulo, Brazil
Aluízio Jeremias, a memória do samba campineiro Aluízio Jeremias é sambista e artista plástico. Mais do que isso, este senhor de 70 anos é a memória viva de um tempo em que Campinas começava a se urbanizar e o Cambuí era um bairro negro. Foi no cortiço Porteira Preta, localizado em uma fazenda desativada, que o menino cresceu entre a pobreza e o samba. . Fundador e presidente de honra da escola Rosa de Prata, uma das mais tradicionais do carnaval campineiro, Jeremias é o sambista vivo mais importante da cidade. Apesar das privações na infância e na adolescência, educou-se com os discos de jazz e de música erudita que a mãe, uma cearense analfabeta, trazia de São Paulo. . Pintor naïf, seu ateliê é a casa onde mora, na Vila Castelo Branco. Em suas telas passeiam personagens do universo afro-brasileiro, sambistas, passistas, baianas, orixás. O encontro de seu trabalho com seu próprio mundo se deu após a descoberta de Cândido Portinari. Na entrevista, Aluízio Jeremias fala sobre arte, cultura e racismo.